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Coluna de Sexta - 11/02/2022: O cabide

Foto do escritor: Gustavo Tamagno Martins
Gustavo Tamagno Martins
10 de fev. de 2022
2 min de leitura

Ilustração: Eduarda Tamagno Martins

Participei de uma oficina de Escrita Criativa anos atrás que tenho recordações até hoje. Lembro que em uma das tarefas, cada pessoa escolhia uma palavra escrita no quadro e precisava pegar aquele vocábulo e construir uma frase, uma curta narrativa. Como fui um dos últimos a selecionar, fiquei com a palavra que tinha sobrado: o cabide. No primeiro momento, fiquei apavorado com o que eu ia construir a partir daquele objeto. E foi aí que comecei a pensar em seu aspecto, sua finalidade, a poesia escondida por trás dele. Apreciador de fábulas e de histórias com moral que sou, logo pensei no que poderia aprender com um cabide.


A inspiração foi momentânea, até porque tínhamos um tempo cronometrado para escrever alguma coisa no papel. E até me impressionei depois com a reflexão. Supomos que cada um de nós seja um cabide. Por vezes estamos lá esquecidos dentro do guarda-roupa, sem utilidade nenhuma, solitários. Em outras estamos tão carregados que já andamos sem forças, prestes a estourar. Tem aqueles cabides de madeira, bem resistentes. Mas também existem cabides de plástico, mais frágeis, que não suportam muito peso. Aí que está a diferença.


O problema é quando passamos a carregar pesos que não são nossos. Nós queremos carregar o mundo todo nas costas, mas o nosso cabide não é resistente a tal ponto. Compramos brigas que nem são nossas, assumimos responsabilidades que nem precisávamos, a fim de aliviar o cabide do outro. Mas quem acaba estourando depois é a gente. Criamos rusgas desnecessárias, guardamos sentimentos que nem nos cabem mais, armazenamos situações que são melhores rasgar e colocar no fogo. Quando assumimos outros pesos, além da nossa capacidade, nós acabamos entortando, rompendo, quebrando ao meio. Para que isso não ocorra, precisamos aprender a perceber o quanto conseguimos carregar, os nossos limites. Jamais vamos conseguir pendurar todas as roupas do mundo no nosso cabide. E está tudo bem.

 
 
 

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