Coluna de Sexta - 11/02/2022: O cabide


Participei de uma oficina de Escrita Criativa anos atrás que tenho recordações até hoje. Lembro que em uma das tarefas, cada pessoa escolhia uma palavra escrita no quadro e precisava pegar aquele vocábulo e construir uma frase, uma curta narrativa. Como fui um dos últimos a selecionar, fiquei com a palavra que tinha sobrado: o cabide. No primeiro momento, fiquei apavorado com o que eu ia construir a partir daquele objeto. E foi aí que comecei a pensar em seu aspecto, sua finalidade, a poesia escondida por trás dele. Apreciador de fábulas e de histórias com moral que sou, logo pensei no que poderia aprender com um cabide.
A inspiração foi momentânea, até porque tínhamos um tempo cronometrado para escrever alguma coisa no papel. E até me impressionei depois com a reflexão. Supomos que cada um de nós seja um cabide. Por vezes estamos lá esquecidos dentro do guarda-roupa, sem utilidade nenhuma, solitários. Em outras estamos tão carregados que já andamos sem forças, prestes a estourar. Tem aqueles cabides de madeira, bem resistentes. Mas também existem cabides de plástico, mais frágeis, que não suportam muito peso. Aí que está a diferença.
O problema é quando passamos a carregar pesos que não são nossos. Nós queremos carregar o mundo todo nas costas, mas o nosso cabide não é resistente a tal ponto. Compramos brigas que nem são nossas, assumimos responsabilidades que nem precisávamos, a fim de aliviar o cabide do outro. Mas quem acaba estourando depois é a gente. Criamos rusgas desnecessárias, guardamos sentimentos que nem nos cabem mais, armazenamos situações que são melhores rasgar e colocar no fogo. Quando assumimos outros pesos, além da nossa capacidade, nós acabamos entortando, rompendo, quebrando ao meio. Para que isso não ocorra, precisamos aprender a perceber o quanto conseguimos carregar, os nossos limites. Jamais vamos conseguir pendurar todas as roupas do mundo no nosso cabide. E está tudo bem.



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