Poeta do Asfalto: conheça a história do gari de Canoas que publicou o seu primeiro livro


Os moradores dos bairros Mathias Velho e Ideal, de Canoas (RS), já devem ter cruzado com Jonatã Nunes Amarante, 33 anos, pelas ruas a partir das cinco horas da tarde. Isso porque ele trabalha como gari e faz a coleta de resíduos recicláveis dessas localidades no turno da noite desde 2009.
Natural da cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre, antes mesmo de ser coletor, Jonatã trabalhou como supridor em supermercado, auxiliar de produção e em várias oportunidades atuou também como servente de obra. Desde os 14 anos que ele encontrou uma nova ferramenta - a literatura -, mas acabou deixando de lado por causa de outras prioridades. Anos mais tarde, ele voltou a escrever e ela se acendeu novamente.
“Com as frequentes reportagens que chegaram até mim, percebi que já não era mais um hobby a escrita e sim algo que já fazia parte de mim”, conta.
Foi neste ano que Jonatã resolveu reunir alguns poemas prontos e outros recém terminados para lançar a sua primeira obra. O livro, viabilizado com recursos próprios do autor, recebeu o nome de “Poeta do Asfalto - O Tempo é Prioritário” e traz poemas que falam sobre amores, perdas e o tempo.
“A sensação mais incrível do mundo! É como ver o nascimento de um filho. Sinceramente estou fascinado com a adoração em cima da minha primeira obra, pois estão recebendo muito bem”, relata, emocionado, após a impressão das 300 primeiras cópias.
Inspirado pelos poetas Bukowski e Mario Quintana, o canoense afirma que está em seus planos criar projetos culturais em seu bairro, o Rio Branco, para dar mais voz aos que querem ser ouvidos. Além da organização de um novo livro, Jonatã também adianta que, com as obras que recolhe em sua atividade profissional, criará uma biblioteca comunitária a partir do próximo mês.
Filho adotivo de Antônio e Roseli, o gari poeta pontua que o maior aprendizado de trabalhar nas ruas é perceber que o ser humano ainda trata uns aos outros com muita desigualdade. Segundo a visão dele, são poucas as pessoas que são humanitárias e que têm empatia no coração.

Para concluir, o escritor deixa a sua mensagem para as pessoas que assim como ele também possuem sonhos e desejam realizá-los.
“Acredite em si mesmo, seja persistente, não desista no primeiro obstáculo que aparecer, pois a vida é dura, mas é justa pros que se esforçam. Pode demorar, mas um dia seus objetivos serão alcançados e seus sonhos realizados. Acredito que Deus não nos dá sonhos se não fôssemos capazes de realizarmos”, finaliza Jonatã.
O TEMPO PASSA
(Jonatã Nunes)
Como eu vejo o tempo passar
e o sol demorar a se pôr
como eu vejo o tempo passar
e a chuva não pensa em parar
como eu vejo o tempo passar
e os anos simplesmente ultrapassarem
como eu vejo o tempo passar
e eu aqui parado a pensar
Saudades de uns anos atrás
de quando a vida era mais elegante
nem tudo era tão relutante
os olhares eram mais reluzentes
de quando as amizades eram
mais aconchegante
e hoje eu vejo tudo tão extravagante
de quando o amor era sentido
num olhar
e não a dor disfarçada em
um breve sorriso
de quando tudo era só
pique esconde
pega-pega
e amarela
e não a vida dividida por uma cela.
Saudades daquele breve som
num alto e bom tom de
passa pra dentro
ou vem comer
senão vou aí te pegar
com uma chinela
o medo
o pavor
de passar vergonha
hoje os atos são tão sem vergonha
Saudades de quando a vida
passava num instante
e as pessoas não eram tão inconstante
e hoje percebo que tudo
não passa de miragem
essa vida é apenas uma metamorfose
e nela não passamos
de simples ambulantes
Saudades de quando ainda
era menor
e só pensava em ter 18
só pensava em crescer
o porquê de tanto querer envelhecer
por que não pensava em apenas viver
minha infância
e hoje só me reparo com os porquês?
por que apressar?
pra quê acelerar?
por que não podia ser normal?
essa vida de adulto
é um tanto sem sal
Doces são as lembranças
amarga é nossa realidade
vejo o brilho de nossa essência
se ofuscar
com os tons cinzas de nossa cidade…
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