Especial: Descobrindo o talento aos 50

Atualizado: 25 de dez. de 2020
Matéria produzida para o Fanzine Fazendo Arte, da disciplina de Planejamento Gráfico 2020/02.
Em homenagem ao amigo e fotógrafo Mauro J. Bettiol.

Depois de 50 anos de vida, trabalhando em muitos setores, desde a área administrativa e financeira de empresas e até sendo sócio da construtora da família, Mauro Bettiol descobriu o seu oxigênio: a arte. Como uma pessoa tímida, o caxiense sempre almejou encontrar alguma forma de se comunicar com o mundo.
Foi a partir do momento que chegou para o pai e comunicou que estava caindo fora da parceria na empresa familiar que a sua vida mudou e partiu para o que ele realmente planejava fazer.
— Ele quase ficou louco. As pessoas mais antigas não entendem muito desse lance. Aos pouquinhos fui acalmando ele, e trabalhei mais uns dois anos, terminando as obras com os clientes. No início, a família e os amigos pensaram que eu estava ficando louco. Larguei o emprego, chutei o balde para me dedicar à cultura. Fui ironizado, fiquei quietinho — confidencia.
No passado, quando menino sempre se dedicou ao esporte e atletismo, e via essa a forma de falar com o mundo: através do seu corpo. Jogou futebol até os 45 anos, quando precisou parar por causa de um problema crônico. Como ele não recebeu o apoio, acabou fazendo o contrário e incentivando o sobrinho para a atuação esportiva. Um dos seus desejos sempre foi escrever um livro. Mauro pensava que a sua comunicação com o mundo seria por meio da escrita. Por isso, começou a introduzir na sua rotina o hábito de leitura, com livros de fotografia, natureza e autoajuda, seus
maiores interesses.

No entanto, foi mesmo com trocas de e-mails que ele descobriu que o seu
talento era outro. Ele pegou como costume enviar e-mail com uma reflexão escrita por ele para os seus amigos com mais afinidade, mas viu que pouquíssimos retornavam.
— Pensei: vou tirar alguma fotografia, colocar a reflexão junto e mandar os trinta e-mails. Agora voltava a metade, 16, 17. Minha caixa de entrada tava cheia. Tirei umas fotografias mais legais ainda. Os retornos eram incríveis, uns 20 voltavam. Tem alguma coisa errada por aí, acho que eles não estão olhando o que eu escrevo, ele estão olhando a fotografia. Estão achando interessante. Agora entendi. A minha habilidade não é a escrita, é o olhar e a fotografia. Pensei que é por aí mesmo — relata.
Desde jovem, a maior dúvida de Mauro envolvia saber qual era o seu talento.
— Todo mundo tem um talento que tem facilidade. E eu não sei qual o meu talento. Sempre fui um cara esforçado, mas qual será o meu talento? Acho que agora descobri o meu talento. O meu talento mesmo é a fotografia, porque às vezes eu enxergo coisas que ninguém consegue ver. Vem ao natural. Descobri o meu talento aos 50 anos, Deus me deu a resposta — comemora.
Como cada um tem a sua missão aqui na Terra, Mauro conseguiu achar a sua. Na visão dele, a sua tarefa é promover a vida humana e passar a paz de espírito, afinal a arte é sinônimo de vida. E o melhor de tudo. Bettiol encontrou outro grande significado: o exemplo que dá para seus dois filhos.
— Eles estão assimilando isso e estou mostrando que não interessa dinheiro. É sobre a parte humana, ser querido para as pessoas, não fazer nada de errado — acrescenta.

No momento, Mauro se dedica exclusivamente ao seu hobbie cultural. Ele alega que fez uma inversão. Em vez de iniciar com esse processo de arte, que é muito difícil principalmente pelo lado financeiro, o fotógrafo se organizou e agora pode fazer a sua arte com o seu próprio suor.
— Sou o meu próprio patrocinador. Livros e exposições tudo no meu braço. Nunca ganhei dinheiro de nada e nem precisei puxar o saco de ninguém. Estou investindo em mim mesmo. Todos nós podemos ser quem nós quisermos — manifesta o artista que aproveitou a pandemia para criar, e já está com cerca de quatro projetos de livros na “gaveta do computador”.
Entre os seus principais trabalhos na região, estão a exposição “Os Segredos da Janela”, que foi sucesso na Galeria de Arte Gerd Bornheim, na Casa da Cultura, no início de 2020. A abertura quase alcançou o número de 200 pessoas, fora todas as visitas durante o período. No seu portfólio também estão exposições que falam sobre os quatro elementos da natureza e da metamorfose, além do livro “Cápsula do Tempo - o julgamento do oceano”. Fora isso, teve suas fotos adicionadas na capa e interior do livro
“Uma História de Amor” da escritora Lourdes Curra, bem como na capa do álbum musical do Ricardo Biga. Bettiol conta ainda com diversos prêmios na Secretaria do
Meio Ambiente de Caxias e do Sesc Porto Alegre.
Seus maiores inspiradores são os seus pais. O pai é uma pessoa mais dinâmica e ativa e mesmo com apenas o quarto ano do primário, lhe ensinou as principais referências humanas: ser honesto, trabalhar bastante e gerenciar as economias. Já a mãe sempre foi uma dona de casa, que usou de muito amor e carinho para cuidar da família.
PAREIDOLIA
Esse é um dos tipos de fotografias capturados pelo caxiense Mauro Bettiol. Mas o que é afinal? Pareidolia é um fenômeno psicológico que faz com que as pessoas reconheçam padrões nas coisas, ou seja, vejam coisas abstratas em uma real. Sabe aquele costume que a gente tem de procurar a figura de animais nos contornos das nuvens? Então, é isso!
O desafio é tentar descobrir o que o artista enxergou em cada fotografia abaixo. Divirta-se!
PARA MAURO BETTIOL
:: Um fotógrafo: Sebastião Salgado;
:: Um livro: “Quem pensa, enriquece”, de Napoleon Hill;
:: Uma fotografia: é autoral, mas não tem mais ela. Se trata da chave que encontrou o seu projeto. Uma raiz de árvore na beira do mar virou uma arte abstrata sob os seus cliques.
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O amigo Mauro Bettiol nos deixou na manhã desta quinta-feira (24/12/2020).
Descansa em paz, meu caro!



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