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De Norte a Sul: três imigrantes falam sobre a cultura nos países da América Latina

Foto do escritor: Gustavo Tamagno Martins
Gustavo Tamagno Martins
12 de fev. de 2022
6 min de leitura

Reportagem produzida juntamente com as colegas Fernanda Tomás e Ingrid Gonçalves, em junho de 2021.


Composta por 20 países, a América Latina é o berço de culturas dos mais diversos tipos. Arte, dança, música, festas e crenças, em cada país descobrimos uma realidade completamente diferente.


Muito antes da colonização, a região da América Latina já era extremamente diversificada culturalmente, com centenas de povos habitando o mesmo local. A convivência entre os incas, os maias, os guaranis, tupis, calchaquíes, tzotziles, olmecas, etc, possibilitou o intercâmbio de costumes, crenças e práticas, repassadas até hoje, de geração em geração.


Com a chegada dos espanhóis e portugueses, todos esses povos foram unificados, chamados de índios ou indígenas, como se fossem todos de uma mesma tribo. Durante a colonização, muito da cultura antiga foi perdida, mas ao mesmo tempo, uma nova começou a se formar.


Mesmo com tamanha riqueza cultural e natural, todos os países da América Latina compartilham de uma colonização irresponsável, que deixou sequelas sociais e econômicas por onde passou. A integração da América Latina enfrenta dificuldades e obstáculos devido à diversidade de culturas, às características específicas do Poder Estatal de cada país e às diferenças de seus modelos de desenvolvimento.


Os problemas econômicos e sociais, frutos de séculos de exploração, fazem com que muitas pessoas optem pela migração para fora de seus países de origem. Entretanto, a grande diferença entre cada um dos 20 países da região, possibilita que, muitas vezes, essa migração seja feita entre os próprios países da América Latina.


Seja em busca de oportunidades de emprego, de educação de qualidade ou de um estilo de vida mais barato, esse fluxo constante de latino-americanos viajando e mudando-se de um país para outro aumenta mais ainda o intercâmbio cultural entre nações. Tornando-nos um só.


Somos todos latinos


Um exemplo dessa migração é o jovem Nicolas Perez, de 28 anos. Há cerca de seis anos, ele mudou-se da pequena cidade de San Antonio, no Chile, para a capital da Argentina, Buenos Aires, em busca do seu sonho de se tornar médico. Ele conta que na Capital argentina, a faculdade é gratuita, possibilitando o ensino superior a todos. E apesar de serem países com 1.135,8 km de distância, as pessoas são muito parecidas, amáveis e carinhosas, além de ter encontrado diversas semelhanças culturais. O chileno relata que sente saudades da diversidade de comidas que existem na sua cidade natal, sobretudo, frutos do mar, peixes, etc. Ele relembra de um pastel de forno recheado de cebola, carne, ovos, azeitona e pimenta, uma das suas comidas preferidas que não encontrou na Argentina. Apesar da comida do Chile não se comparar com a de Buenos Aires, Nicolas revela que na capital existem mais passatempos, além da cidade ser linda.


“Os passatempos na Argentina são mais divertidos que no Chile, mas pode ser que eu tenha essa impressão devido a cidade de onde venho ser muito pequena e ter poucas coisas para fazer”, explica.

Nicolas Perez em frente à Catedral de La Plata, Buenos Aires, Argentina.

Nicolas conta que um de seus hobbies no Chile era se reunir ao ar livre para beber, além dos churrascos em família. No Chile, tudo é motivo para fazer festa, praticamente todos os feriados. “As pessoas costumam fazer festa em casa, tomar muito álcool e comer em abundância, já na Argentina, as pessoas se encontram em bares, vão em festas escutar reggaetton e cumbia ou simplesmente se reúnem entre amigos”, destaca.

O estudante revela que sentiu muita dificuldade nos primeiros meses para encontrar um lugar para morar que fosse em conta, por Buenos Aires ser capital e existir muito turismo, os preços para se viver acabam sendo mais altos. Além disso, ele demorou a se adaptar aos novos costumes e fazer amizades, até que conheceu a brasileira Tauana Miranda, que também saiu do Brasil para estudar medicina na Argentina. Os dois tiveram a oportunidade de aprender sobre a cultura e o idioma um do outro. Nesse meio tempo, o estudante chileno teve a oportunidade de conhecer o Brasil durante as férias da faculdade, e ficou impressionado com as diferenças entre os três países da América Latina.


O verde em abundância da natureza, os animais e os estilos de música diversificados em todas as regiões do país foram alguns dos pontos que mais lhe chamaram a atenção, além da língua, é claro. Ele relata que na Argentina, não teve problemas com o idioma, mas chegando ao Brasil, apesar das línguas serem próximas, não se atreveu a falar português em público.


“Eu tenho vergonha, minha namorada me ensina bastante, mas mesmo assim, é uma língua muito difícil de falar e escrever, mas a gente se entende”, explica.

Ele conta sobre seus ídolos do Chile, que também são bem conhecidos pela América Latina.

“Sou muito ligado ao futebol e tenho admiração por Alex Sanchez, Arturo Vidal e gostaria de incluir o Pablo Naruda e Gabriela Mistral que ganharam prêmios Nobel de literatura, e o Alberto de la Maza, que é um reconhecido astrônomo”, relata.

Apesar da distância entre os países, a América Latina é uma parte do continente que possui raízes fortes e semelhantes, o que explica costumes, artistas e culturas tão próximas. Quando pequeno, Nicolas assistia Dragon Ball Z e Chaves, diferentes animes e 31 minutos, que era um grupo de fantoches Chilenos.


Contudo, as culturas se chocam e se reencontram, em uma América onde nos denominamos de várias formas, mas na verdade, somos todos latinos.


Muito mais do que um intercâmbio


Para a boliviana Iranne Ortiz, de 45 anos, o que começou como um intercâmbio de estudos no Brasil há 23 anos se tornou uma nova vida. Foi por aqui que ela conheceu o marido Ademir e teve seus dois filhos, Wendy, 21, e Fernando, 18, ambos estudantes. Natural de Riberalta, importante cidade industrial da Bolívia, ela possui em seu currículo vários cursos no ramo da beleza, mas trabalha atualmente em uma empresa, onde faz o acabamento de ônibus.


Iranne lembra que os primeiros choques culturais que teve ao chegar no Brasil foram justamente na questão do idioma e do frio, especialmente na região serrana do Rio Grande do Sul. Segundo ela, o idioma parece ser muito fácil e similar com o da Bolívia, mas quando realmente tentam falar, percebem ser mais difícil do que imaginam.


“A maioria dos estrangeiros não sabem que no Brasil pode fazer temperaturas tão baixas quanto na região Sul e se surpreendem quando percebem que é possível”, conta.

Iranne turistando na Rua Torta, em Gramado.

A boliviana relata que no território brasileiro existe mais diversidade de cultura e maior liberdade econômica e de pensamento do que em seu país de origem. Ela destaca que o povo brasileiro é mais amigável, hospitaleiro e aberto ao novo, quando comparado à população da localidade onde ainda moram seus familiares.

“Apesar do povo boliviano ser menos hospitaleiro e mais fechado, os casos de xenofobia por parte deles a qualquer estrangeiro são relativamente menores. Eles tendem a respeitar mais as diferenças de estrangeiros que vivem lá. Não costumam ter muitos estereótipos de brasileiros”, explica.

Além de sentir falta da comida boliviana, que se destaca pela salteña potosina, carne de lhama, majadito (tipo de risoto mais seco) e carne a la parrilla (churrasco), Iranne tem saudade do bom humor das pessoas do país. Conforme ela, o povo de lá sorri mais e em geral estão mais de bem com a vida.


Até mesmo por ser uma nação muito alegre e festeira, um costume dos bolivianos é reunir as famílias nos finais de semana para comer, beber e passar um tempo juntos, principalmente na época do Carnaval, quando as pessoas festejam de diferentes formas, dependendo da região.


“São poucas as diferenças das festas brasileiras com as festas bolivianas. Talvez a principal é que as festas na Bolívia são diurnas. Acontecem das 14h às 22h, por exemplo, e não à noite, apesar que existem festas noturnas também”, complementa.

Um fator cultural da Bolívia que Iranne cita não ter presenciado no Brasil são os estilos musicais. Cumbia, Reggaeton, Salsa e Bachata, ritmos originalmente latinos e bem comuns por lá, não têm a mesma popularidade por aqui. Ao se tratar de programas que cresceu assistindo em seu país, ela menciona El Chavo del Ocho (Chaves) e Xuxa, programas muito populares em toda a América Latina.


Ela demonstra estar feliz morando no Brasil, apesar dos muitos problemas que o país enfrenta.


“Aqui continua sendo o melhor lugar para se viver. É um país que representa a grandiosidade da América Latina e o grande potencial que ela tem. Oferece melhores condições e qualidade de vida comparado a maioria dos outros países latinos”, completa.

Depois do terremoto


Assim como Iranne, o haitiano Pascal Dolcine, de 24 anos, também escolheu o Brasil para estudar. Ele decidiu deixar o Haiti, pois após o terremoto que destruiu o país, em 2010, a situação no seu país de origem foi ficando cada vez mais difícil. Assim que chegou à Caxias do Sul, de Liancourt, no departamento de Artibonite, Pascal já se surpreendeu com o frio da Região Sul brasileira.


Pascal já no Brasil durante celebração religiosa.

O haitiano salienta que a cultura brasileira e a cultura haitiana são muito distintas. Em especial, ele cita que sente falta das músicas e festas do seu país.

“As festas são bem diferentes. As diferenças são que lá elas duram mais tempo. Por exemplo: só uma festa pode levar um mês de celebração e a maioria são realizadas no fim do ano”, destaca.

Pascal pontua que os estilos musicais mais tocados no Haiti não são encontrados aqui no Brasil. Lá se destacam a Konpa, o Rap kreyól, o zouk e a salsa. Ele menciona que uma série que cresceu assistindo se chama Amor e o Dinheiro. O videogame Playstation também fez parte da adolescência do haitiano.


Para não dizer que não há nenhuma semelhança, Pascal ressalta que o prato que não pode faltar tanto na mesa do brasileiro, quanto na do haitiano é o mesmo: o arroz e feijão. No Haiti acrescenta-se os legumes para complementar a comida principal.


 
 
 

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