Coluna de Sexta - 27/01/2023: Quem cala, sente


O silêncio é um remédio excelente em um mundo tão barulhento. Ele representa muito mais do que apenas solidão e vazio. O silêncio também comunica, muitas vezes até o que as palavras não conseguem expressar. Em uma sociedade com tantos ruídos, torna-se necessário, por vezes, silenciar e sentir a profundidade da vida. Desacelerar. Escutar a si mesmo. Ah, se algumas pessoas escolhessem o silêncio em vez das tantas bobagens que proferem por aí. O mundo seria um pouco menos estrondoso.
Por outro lado, vale lembrar que o silêncio, assim como cura, também adoece. Sempre lembro da famosa tirinha da Mafalda, em que a personagem criada por Quino pergunta à professora “para onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?" Silenciar não quer dizer que devemos guardar tudo para nós mesmos. Silenciar não tem nada a ver com não desabafarmos e não nos abrirmos com os outros. Silenciar não é calar.
Eu sou adepto do método de uma das melhores escritoras que já tivemos. Clarice Lispector defendia que “não se guarda as palavras, ou você as fala, ou as escreve, ou elas te sufocam”. De alguma forma precisamos colocar para fora. Nós precisamos externalizar o que está engasgado na garganta. Retomando a pergunta da Mafalda, e aí, para onde será que vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos? Eles viram dores, doenças, uma asfixia causada por nós mesmos. Se torna azia, gastrite, dor de cabeça ou crises de ansiedade. Seja qual for o diagnóstico, calar deixa sinais.
Existe o ditado de que “quem cala, consente”. Eu reformulo e digo que quem cala, sente. Quem cala, sente no corpo. Quem cala, sente na mente. Quem cala, sente no emocional. Quem cala, sente a falta de ar causada por esse ato de se sufocar a cada dia. Aqueles sapos que engolimos somados às emoções que procuramos abafar causam esse nó na garganta. Ao deixarmos de falar (ou escrever) o que sentimos, perdemos um pouquinho da gente a cada dia. Sufocados.



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