Coluna de Sexta - 06/08/2021: Aquilo que não é dito


Dias atrás fui convidado para participar de uma live e precisei escolher um tema para comentar. Logo pensei: “bom, nada me define melhor do que a expressão observador das entrelinhas”. Se tem uma coisa que me chama a atenção é o que não está evidente. São os detalhes. Aquilo que não está ali escancarado e qualquer um pode perceber.
Acredito que a minha atuação literária e jornalística me fazem reforçar essa atenção diariamente. Estar atento ao que não é dito. Perceber sinais que as palavras em si não externalizam. Captar o que está sendo falado sem se ouvir alguma palavra. Compreender as turbulências de dentro e não apenas o que surge no exterior.
No meu pódio sempre deixei a essência. Aquilo que carregamos com a gente e nos diferencia. Aparência é mutável. Envelhece, murcha, cria rugas, treme e adoece. A essência pode até se modificar, e isso é normal, porque estamos em constante evolução e aprendizado, mas a gente não perde a nossa. Ou melhor, não deveríamos. Sabe aquelas pessoas que são diferentes quando estão com outras pessoas? Lamentável, mas essas tentam encobrir sua própria essência.
Somos bem mais do que o que nós falamos ou do que dizem a nosso respeito. Somos aquela parte que não está explícita. Somos o que temos dentro da gente. Somos aquilo que gostamos de fazer quando estamos sozinhos. Esses somos nós. Somos as batidas do coração que raramente são ouvidas atenciosamente. Para nos descobrirmos e percebermos a beleza da vida precisamos nos atentar para aquilo que não é dito. Leminski deixou escrito: “repara bem no que não digo”. Eu, inclusive, não sou apenas essa crônica. Sou aquilo que não é dito, falado ou escrito.



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