Coluna de Sexta - 03/12/2021: A peça do quebra-cabeça


Um dos momentos que eu me permito desconectar do virtual para me conectar com o mundo real é quando ando pela rua. Meu celular permanece no silencioso - dificilmente ele sai desse modo - e guardado. Não ouso pegá-lo para nada. O meu objetivo é apreciar cada passo do caminho, cada detalhe do percurso, cada nuance do que aquele trajeto de sempre pode me trazer de diferente.
Em um desses retornos do meu trabalho até a parada, encontro uma peça de quebra-cabeça na calçada. Até fixei o olhar para comprovar. E era mesmo. Daquele momento em diante não pensei mais em outra coisa. Me teletransportei. Tudo dependia da perspectiva: ela era apenas uma peça de um quebra-cabeça qualquer descartada no meio do nada. Por outro lado, refleti sobre a falta que ela estaria fazendo para aquele quebra-cabeça do qual fazia parte. Ele não poderia ser montado por completo, porque ela não estava junto com as demais peças. Que grande diferença faria a sua ausência.
Assim somos nós. Diante da imensidão de pessoas, notamos que somos mais um. Somos mais um nome, mais um número, mais uma senha… Parecemos aquela peça de quebra-cabeça abandonada em uma calçada alheia. No entanto, se formos analisar por outro panorama, aquela multidão não é a mesma sem a gente. Não que somos extraordinários a tal ponto, mas que agregamos como parte do todo. Não existem saberes maiores ou menores. Existem saberes diferentes. É isso que nos torna diferentes e, ao mesmo tempo, fundamentais.
Um quebra-cabeça não consegue ser montado com peças iguais. Pelo contrário, somos distintos uns dos outros, mas acabamos nos tornando um conjunto que se complementa, formadores. Gosto de lembrar que a vida é uma eterna troca, uma partilha constante. O que eu sei somado ao que você sabe pode se transformar no que nós sabemos juntos. E é isso que importa. Uma peça de quebra-cabeça sozinha não forma nada, mas faz uma grande diferença se faltar no jogo.



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