Coluna de Sexta - 03/06/2022: Não vemos o que vemos


Lembro que alguns anos atrás visitei uma exposição artística para gravar uma reportagem. Uma das artistas plásticas que me concedeu entrevista explicou, afinal, qual é a grandeza da arte. Se trata da subjetividade que é transmitida por ela. Todas as pessoas podem olhar para o mesmo quadro, mas as percepções daquela apreciação serão distintas. Uma mesma obra pode fazer as pessoas terem sensações e interpretações mais diferentes possíveis. Uma pintura que, para o outro, pode causar uma sensação de dor, para mim pode significar uma representação de alívio. E continua sendo arte. Ou melhor, isso é arte.
O escritor Rubem Alves tem uma frase que se complementa - ou quase se iguala - com outra da francesa Anaïs Nin, e elas explicam isso. A dele diz assim: “nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo, aqueles que têm belezas dentro de si”. Já ela fala o seguinte: “não vemos as coisas como elas são: vemos as coisas como somos”. Ou seja, ambos querem dizer a mesma coisa: a gente não vê aquilo que, de fato, está olhando. É mais profundo.
Todo mundo pode ver a mesma coisa, mas nem todo mundo percebe a mesma coisa. A gente vê além dos olhos. A gente vê com a nossa bagagem, com a nossa experiência, com os nossos sentimentos e com a nossa sensibilidade. Não consigo fazer o outro observar da mesma forma que eu, justamente porque ele tem perspectivas da realidade diferentes da minha. A gente pode perceber detalhes que quase ninguém percebe. A gente pode avistar preciosidades em situações que para os demais é apenas algo simples. A gente pode vislumbrar um objeto que para os outros não passa de mais uma quinquilharia inútil, enquanto para nós pode ser um tesouro, por sabermos toda a história e o significado dele. A gente pode achar o sonho de uma pessoa bem sem graça quando aquilo, para ela, é tão valioso. Podem me criticar por ser muito otimista, mas se precisamos olhar de alguma forma para as coisas, que seja pelo lado bom. E isso já dirá muito sobre quem realmente somos. É o que afirmaram os dois grandes escritores citados acima, não é mesmo?



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